Linguagem simples também é inclusão
Atualizado: 22 de set.
Nem toda barreira é física.
Muitas vezes, a exclusão começa quando a informação não é clara, quando o texto é difícil demais, quando a linguagem cria distância ou quando apenas algumas pessoas conseguem compreender aquilo que deveria ser acessível a todas.
A linguagem simples parte de uma ideia básica, mas poderosa, as pessoas têm o direito de entender as informações que afetam suas vidas.
Isso vale para um comunicado, uma orientação de saúde, uma regra de escola, um formulário, uma política pública, uma informação sobre direitos ou qualquer outro conteúdo importante.
Comunicar com clareza não significa simplificar o mundo.
Significa ampliar o acesso a ele.

O que é linguagem simples?
Linguagem simples é uma forma de comunicação pensada para que as pessoas encontrem, compreendam e utilizem a informação de que precisam.
Isso envolve muito mais do que trocar palavras difíceis por palavras fáceis.
Também significa organizar melhor as ideias, evitar excesso de informações, usar frases mais diretas, explicar termos técnicos quando necessário e pensar na pessoa que vai ler.
Um texto pode estar gramaticalmente correto e, ainda assim, ser quase impossível de entender.
Pode ser longo demais.
Pode usar siglas sem explicação.
Pode esconder a informação principal no meio de muitos parágrafos.
Pode utilizar palavras que fazem sentido para quem trabalha em determinada área, mas não para o público.
A linguagem simples procura diminuir essas barreiras.
Clareza não é empobrecimento
Existe um preconceito comum contra a linguagem simples.
Algumas pessoas acreditam que escrever de forma clara é “infantilizar” o leitor ou reduzir a qualidade do texto.
Não é verdade.
Escrever com clareza exige muito trabalho.
É preciso entender o assunto, identificar o que realmente importa e organizar a informação de forma que outras pessoas consigam acompanhar o raciocínio.
Muitas vezes, é mais fácil escrever um texto complicado do que escrever um texto claro.
Palavras difíceis podem esconder ideias mal organizadas.
Um texto simples, ao contrário, precisa sustentar seu sentido sem depender de excesso de termos técnicos ou frases enormes.
Clareza é uma escolha de comunicação.
E, em muitos casos, também é uma escolha de respeito.
Quem se beneficia da linguagem simples?
A resposta mais direta seria: todas as pessoas.
Mas alguns grupos podem encontrar ainda mais barreiras quando a comunicação é excessivamente complexa.
Isso pode acontecer com pessoas com deficiência intelectual, pessoas com dificuldades de leitura, pessoas idosas, pessoas com baixa escolarização, pessoas que estão aprendendo o idioma, pessoas neurodivergentes e pessoas que estão vivendo situações de estresse ou urgência.
Imagine, por exemplo, alguém tentando compreender uma orientação importante em um momento de medo, dor, dúvida ou pressão.
Mesmo pessoas acostumadas com textos complexos podem ter dificuldade nessas situações.
A comunicação precisa considerar a realidade de quem recebe a mensagem.
Entender também é uma forma de participar
A participação depende de acesso à informação.
Como uma pessoa pode decidir, questionar, reivindicar, responder ou escolher se não consegue entender aquilo que está sendo comunicado?
Quando a linguagem é inacessível, a participação diminui.
Isso acontece em muitos lugares...
na escola;
no trabalho;
nos serviços de saúde;
nos órgãos públicos;
nas universidades;
nas empresas;
nas plataformas digitais.
Às vezes, uma pessoa deixa de exercer um direito simplesmente porque não conseguiu entender como fazer.
Outras vezes, não consegue preencher um formulário, responder corretamente a uma solicitação ou compreender o que está sendo pedido.
A linguagem, nesse sentido, pode abrir ou fechar portas.
Linguagem simples não substitui acessibilidade
É importante fazer essa distinção.
Linguagem simples é uma parte da comunicação acessível, mas não resolve todas as barreiras.
Uma comunicação realmente acessível pode precisar de outros recursos, dependendo do público e da situação
Libras;
audiodescrição;
legendas;
leitores de tela;
contraste adequado;
fontes legíveis;
texto alternativo em imagens;
documentos digitais acessíveis;
comunicação aumentativa e alternativa;
formatos de fácil leitura.
A linguagem simples se soma a essas estratégias.
Ela não substitui nenhuma delas.
Algumas escolhas fazem diferença
Pequenas mudanças podem tornar um texto muito mais compreensível.
Colocar a informação principal primeiro
Muitas pessoas abandonam a leitura antes de chegar ao ponto principal.
Por isso, vale perguntar...
O que a pessoa realmente precisa saber?
Essa informação deve aparecer cedo.
Usar frases mais diretas
Frases muito longas aumentam o esforço de leitura.
Dividir uma ideia em duas ou três frases pode tornar o texto mais claro.
Explicar siglas e termos técnicos
Nem todo termo técnico precisa ser eliminado.
Mas, quando ele for necessário, deve ser explicado.
O conhecimento de uma área não pode ser usado como senha de entrada para entender a informação.
Organizar visualmente
Títulos, subtítulos, espaços e listas ajudam a pessoa a localizar informações.
Um bom texto não é apenas escrito.
Ele também é organizado.
Pensar em quem vai ler
Talvez esta seja a pergunta mais importante...
Para quem estou escrevendo?
Um texto só pode ser considerado claro quando o público consegue entendê-lo.
A linguagem institucional e suas barreiras
Quem trabalha em instituições conhece bem esse problema.
Documentos, comunicados e orientações muitas vezes utilizam uma linguagem que parece feita mais para demonstrar formalidade do que para informar.
Frases enormes, excesso de termos jurídicos, siglas não explicadas e informações importantes escondidas no fim do texto criam distância entre a instituição e as pessoas.
Isso é especialmente grave quando a comunicação envolve direitos.
Uma pessoa que precisa pedir ajuda, registrar uma reclamação, fazer uma denúncia ou acessar um serviço não deveria precisar decifrar a linguagem institucional.
A clareza, nesses casos, pode ser parte do acolhimento.
Comunicação também é uma questão de poder
Quem domina determinadas formas de linguagem consegue circular com mais facilidade em alguns espaços.
Quem não domina pode ser tratado injustamente como desinformado ou incapaz.
Mas muitas vezes o problema não está na pessoa.
Está na comunicação.
Uma linguagem fechada, cheia de códigos e feita apenas para especialistas pode funcionar como barreira de poder.
Por isso, tornar a informação mais compreensível também significa democratizar o acesso.
Quando mais pessoas compreendem, mais pessoas podem participar.
Falar simples não é falar com descuido
Outra confusão frequente é acreditar que linguagem simples é uma comunicação informal ou sem rigor.
Não é.
Um texto pode ser formal e claro ao mesmo tempo.
Pode ser técnico e compreensível.
Pode tratar de um tema complexo sem transformar a dificuldade do assunto em dificuldade de leitura.
A questão não é eliminar a complexidade.
É não aumentá-la desnecessariamente.
A escuta também faz parte da clareza
Nenhuma estratégia de comunicação funciona bem sem escuta.
Quem escreve precisa perceber as dúvidas reais das pessoas.
Quais perguntas aparecem com frequência?
Onde as pessoas se confundem?
Em que momento abandonam um formulário?
Quais palavras não são compreendidas?
Onde surgem erros de interpretação?
Essas informações ajudam a melhorar a comunicação.
Muitas vezes, as pessoas que recebem uma mensagem sabem exatamente onde ela falha.
O problema é que raramente são ouvidas.
Linguagem simples na escola
A escola é um espaço importante para pensar esse tema.
Bilhetes para famílias, regras, comunicados, orientações, atividades e plataformas precisam ser compreensíveis.
Quando a comunicação escolar é confusa, a família pode parecer “desinteressada”, quando na verdade não entendeu o que precisava fazer.
O mesmo vale para as crianças.
Explicar de forma clara não significa reduzir expectativas.
Significa criar condições para que mais pessoas compreendam o que está sendo proposto.
Linguagem simples e inclusão
Falar de inclusão é falar também de comunicação.
Não basta permitir que alguém entre em um espaço.
É preciso criar condições para que compreenda, participe e seja ouvido.
Por isso, linguagem simples e inclusão caminham juntas.
Quando um texto se torna mais claro
mais pessoas conseguem compreender;
mais pessoas conseguem decidir;
mais pessoas conseguem responder;
mais pessoas conseguem participar.
Isso é inclusão.
Pequenos testes antes de publicar
Antes de enviar ou publicar um texto, algumas perguntas podem ajudar...
Qual é a mensagem principal?
Ela aparece logo no início?
As frases estão muito longas?
Há palavras que podem ser explicadas?
As siglas estão definidas?
A pessoa sabe claramente o que precisa fazer depois de ler?
O texto está organizado?
Há informação demais?
Uma pessoa que não trabalha nesta área conseguiria entender?
Essas perguntas simples podem melhorar muito a comunicação.
Palavras também podem construir pontes
A comunicação pode aproximar ou afastar.
Pode orientar ou confundir.
Pode acolher ou criar medo.
Pode convidar alguém a participar ou fazer com que essa pessoa sinta que aquele espaço não foi feito para ela.
Por isso, escolher como comunicar também é escolher que tipo de relação queremos construir.
Linguagem simples não é apenas uma técnica de escrita.
É uma forma de pensar no outro.
É reconhecer que comunicar não significa apenas emitir uma mensagem.
Significa criar condições para que ela chegue.
E talvez seja justamente aí que a comunicação se encontra com a inclusão.
Quando a linguagem abre caminhos, mais pessoas conseguem chegar.



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