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Histórias que formam leitoras(es) e cidadãs(ãos)

Foto do escritor: Ronan Sevlac
Ronan Sevlac
15 de jul.
4 min de leitura

Atualizado: 22 de set.

Ler uma história vai muito além de reconhecer palavras em uma página.


Quando uma criança acompanha uma narrativa, ela também aprende a imaginar, esperar, perguntar, criar hipóteses, lidar com emoções e perceber que existem diferentes formas de ver o mundo.


A literatura pode divertir, acolher e encantar. Mas também pode abrir conversas importantes sobre convivência, respeito, natureza, inclusão, diversidade, medo, coragem, amizade e responsabilidade.


É por isso que acredito que histórias ajudam a formar não apenas leitoras(es), mas também pessoas mais atentas à vida em sociedade.



Ler é encontrar outros mundos


Cada livro apresenta uma possibilidade.


Pode ser uma floresta cheia de personagens, uma escola onde todo mundo precisa encontrar seu lugar, uma cidade inventada, uma casa antiga, um jardim misterioso ou um caminho que só aparece para quem presta atenção.


Ao entrar em uma história, a criança experimenta outros pontos de vista.


Ela pode acompanhar uma personagem tímida, uma criança que aprende de outro jeito, um animal que precisa de ajuda, alguém que errou e tenta reparar, ou um grupo que só consegue seguir adiante quando aprende a cooperar.


Essas experiências simbólicas têm força.


Elas permitem que a criança viva situações, dúvidas e descobertas sem sair do lugar, mas sem permanecer exatamente a mesma depois da leitura.


A imaginação também educa


Muitas vezes, pensamos na imaginação como algo separado da aprendizagem.


Mas imaginar também é aprender.


Quando uma criança imagina uma cena, ela organiza informações. Quando tenta prever o que acontecerá na próxima página, exercita pensamento. Quando se identifica com uma personagem, amplia sua percepção sobre sentimentos e relações.


A imaginação não afasta a criança da realidade.


Ela pode prepará-la para olhar melhor para essa realidade.


Uma história sobre a natureza pode despertar curiosidade pelos animais, pelas árvores e pelos rios. Uma história sobre escola pode provocar conversas sobre respeito, amizade e diferenças. Uma história sobre medo pode ajudar uma criança a nomear algo que sente, mas ainda não sabe explicar.


Personagens criam pontes


As personagens são pontes entre a criança e o tema da história.


Quando uma narrativa fala de inclusão, por exemplo, ela não precisa transformar o assunto em uma explicação pesada. Pode mostrar uma criança que participa de outro jeito, uma turma que aprende a escutar melhor, uma escola que reorganiza seus espaços ou uma brincadeira que só fica completa quando todas(os) conseguem participar.


Quando uma narrativa fala de meio ambiente, ela não precisa começar com dados ou alertas. Pode começar com uma aventura, com uma amizade, com uma pergunta ou com uma descoberta.


Bons personagens ajudam a criança a se aproximar de temas importantes sem que a leitura deixe de ser prazerosa.


Nem toda história precisa ensinar uma lição


Esse é um cuidado importante.


Livros infantis podem ter propósito, mas não precisam virar sermão.


A criança percebe quando a história existe apenas para entregar uma mensagem pronta. Quando isso acontece, a aventura perde força.


A literatura pode educar sem explicar tudo. Pode provocar reflexão sem interromper a emoção. Pode apresentar valores sem transformar personagens em exemplos perfeitos.


Uma boa história não precisa dizer o tempo inteiro o que a criança deve pensar.


Ela pode confiar na inteligência da leitora ou do leitor.


Ler junto é criar vínculo


A leitura também é encontro.


Quando uma pessoa adulta lê com uma criança, compartilha mais do que uma história. Compartilha tempo, voz, atenção e presença.


Às vezes, a criança vai lembrar do livro. Outras vezes, talvez lembre principalmente do momento: de quem leu, da risada em determinada página, da pergunta feita no meio da história, da vontade de pedir “só mais uma”.


Esses encontros formam vínculos com os livros e com as pessoas.


E vínculos são importantes para que a leitura não seja vista apenas como obrigação escolar, mas como experiência de descoberta, afeto e imaginação.


Histórias ajudam a fazer perguntas


Uma das contribuições mais bonitas da literatura é que ela não precisa entregar todas as respostas.


Ela pode plantar perguntas.


Por que aquela personagem ficou sozinha?Por que ninguém percebeu que ela precisava de ajuda?O que fez a turma mudar?Por que a floresta estava em perigo?Como alguém pode participar se ninguém escuta sua forma de se comunicar?O que eu faria se estivesse nessa situação?


Perguntas assim continuam depois da última página.


Elas podem aparecer em uma conversa em casa, em uma atividade na escola, em um desenho, em uma brincadeira ou em uma lembrança que volta dias depois.


Literatura e cidadania


Falar que histórias formam cidadãs(ãos) pode parecer algo grande demais. Mas a cidadania também começa em gestos simples.


Começa quando aprendemos que outras pessoas sentem, pensam e vivem de formas diferentes.


Começa quando percebemos que nossas escolhas afetam o mundo ao redor.


Começa quando entendemos que respeito não é apenas uma palavra bonita, mas uma prática cotidiana.


A literatura infantil pode contribuir para isso ao apresentar situações de convivência, conflito, cooperação, cuidado e transformação.


Não como uma cartilha.

Mas como experiência.


Pequenas leituras, grandes marcas


Nem todo livro lido na infância será lembrado em detalhes.


Mas algumas imagens ficam.


Uma personagem corajosa. Um animal querido. Uma frase repetida muitas vezes. Uma ilustração. Um final surpreendente. Uma pergunta que ninguém tinha feito antes.


Essas marcas ajudam a construir repertório emocional, cultural e social.


Quanto mais histórias uma criança encontra, mais possibilidades ela conhece.


Possibilidades de sentir, pensar, imaginar, discordar, criar e participar.


O papel das famílias e das escolas


Famílias e escolas têm um papel importante nesse caminho.


Não é preciso transformar toda leitura em atividade. Às vezes, simplesmente ler junto já é muito.


Mas algumas perguntas podem ampliar a experiência...


Qual personagem você mais gostou?Teve alguma parte que te deixou curiosa(o)?Você já viu algo parecido acontecer?O que poderia ter sido diferente?Que outro final essa história poderia ter?


Essas perguntas não servem para cobrar uma resposta certa.

Servem para abrir conversa.


E a conversa é uma das formas mais bonitas de manter uma história viva.


Cada página pode ser um começo


A literatura infantil não precisa resolver sozinha os desafios do mundo.


Mas ela pode participar da formação de pessoas mais sensíveis, curiosas e atentas.


Pode ajudar uma criança a perceber a natureza com mais cuidado.

Pode mostrar que existem muitas formas de aprender.

Pode apresentar diferenças sem medo.

Pode fortalecer vínculos.

Pode abrir conversas que talvez não surgissem de outro modo.


Por isso, cada página pode ser um começo.


Um começo de pergunta.

Um começo de afeto.

Um começo de consciência.

Um começo de mundo.

 
 
 

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